Não foi desta vez que conquistamos o hexa, mas a experiência de acompanhar a Copa do Mundo valeu a pena. Nos deparamos com uma seleção brasileira formada por craques de extraordinário talento individual, mas que não conseguiu se firmar como time. Confirma-se, mais uma vez, aquela máxima: por maiores que sejam as qualidades individuais, muitas vezes é o espírito coletivo, ou seja, o esforço e a entrega do grupo que fazem a diferença. E foi justamente essa falta que marcou a campanha do Brasil. Por outro lado, foi empolgante acompanhar seleções pouco conhecidas por nós em termos futebolísticos, que encantaram com boas jogadas e vitórias surpreendentes, muitas delas diante de seleções historicamente vitoriosas.
Mas é hora de voltar à nossa realidade. Nos próximos meses, é bastante provável que o cenário nacional se torne mais agitado com o início da campanha eleitoral. Nesse contexto, embora tenham ocorrido avanços em temas ambientais nas diferentes esferas de poder, nota-se que essa pauta ainda ocupou espaço reduzido nos programas e discursos dos candidatos nos últimos pleitos. No entanto, dado seu caráter transversal e sua estreita relação com áreas estratégicas para o desenvolvimento do país, como economia, infraestrutura, energia, saúde pública e segurança alimentar, espera-se que as questões ambientais ganhem maior relevância nos debates eleitorais e na formulação de políticas públicas nos próximos anos.
Nesse processo, cresce a importância da participação de toda a sociedade na cobrança de propostas concretas dos candidatos, bem como na sistematização e no acompanhamento dos compromissos firmados ao longo da campanha. Iniciativas de mapeamento de planos de governo e de promoção de debates específicos sobre meio ambiente têm se mostrado ferramentas importantes para qualificar a discussão pública e estimular maior transparência e detalhamento das propostas nessa área.
Entre os temas que devem receber atenção especial no próximo ciclo eleitoral, destacam-se: a transição energética e a expansão das fontes renováveis; o combate ao desmatamento e a proteção de biomas estratégicos, como Amazônia e Cerrado; a gestão dos recursos hídricos diante do aumento de eventos climáticos extremos; a adaptação de cidades e infraestruturas aos impactos das mudanças climáticas; e a integração entre política ambiental e segurança alimentar, sobretudo diante dos desafios impostos por secas prolongadas, além de inúmeras questões que dependem de definições regulatórias há bastante tempo.
Cumpre destacar que a incorporação da pauta ambiental aos programas eleitorais não deve ser compreendida como a mera inclusão de um tema setorial na agenda pública, mas como a adoção de um vetor transversal de formulação de políticas públicas, apto a influenciar decisões estratégicas em múltiplas áreas da atuação estatal. Sob essa perspectiva, a proteção ambiental e a promoção do desenvolvimento sustentável assumem o papel de diretrizes estruturantes, capazes de orientar políticas voltadas à geração de emprego e renda, à atração de investimentos, ao incremento da produtividade econômica e ao fortalecimento da inserção competitiva do Brasil nos mercados internacionais, sem perder de vista a necessidade de cumprimento dos compromissos climáticos assumidos pelo país no âmbito de tratados e acordos multilaterais.
Essa abordagem integrada revela-se ainda mais relevante diante da crescente convergência entre desempenho ambiental, segurança jurídica e desenvolvimento econômico. Em um contexto global marcado pela intensificação dos riscos climáticos e pela transição para modelos produtivos de menor impacto ambiental, fatores relacionados à sustentabilidade passaram a exercer influência direta sobre fluxos de comércio, decisões de investimento e mecanismos de financiamento. Nesse cenário, critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) consolidam-se como parâmetros cada vez mais relevantes na avaliação de riscos e oportunidades por agentes econômicos, instituições financeiras e investidores.
Além disso, observa-se um movimento regulatório internacional que tende a ampliar a relevância estratégica da agenda ambiental para a economia brasileira. Exemplo emblemático desse processo é o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (European Union Deforestation Regulation – EUDR), cuja aplicação passará a produzir efeitos a partir de 30 de dezembro de 2026. A nova normativa impõe exigências de rastreabilidade e comprovação de conformidade ambiental para determinados produtos e commodities que ingressem no mercado europeu, condicionando o acesso a esse importante destino comercial à demonstração de que não houve vínculo com práticas de desmatamento após os marcos temporais estabelecidos pelo regulamento.
Vale ainda lembrar o potencial do nosso país para uma corrida que tem movimentado a geopolítica mundial no que se refere à busca por minerais críticos e estratégicos, que demandará um planejamento regulatório bastante arrojado nos próximos anos.
Dessa forma, a incorporação da variável ambiental aos programas eleitorais transcende preocupações estritamente ecológicas e passa a representar elemento central de uma estratégia nacional de desenvolvimento. Trata-se de reconhecer que competitividade, segurança jurídica, acesso a mercados, investimentos e sustentabilidade constituem dimensões indissociáveis de um mesmo desafio, cuja adequada equação dependerá da capacidade dos futuros governos de integrar a agenda ambiental às políticas econômicas, industriais, agrícolas e de infraestrutura, conferindo-lhe o status de prioridade estratégica para o país.
Mas antes mesmo das preocupações com o processo eleitoral deste ano, já enfrentamos emergências que não podem esperar por mudanças políticas ou estruturais. É o caso dos eventos das últimas semanas, que voltaram a castigar o sul do país, especialmente o Rio Grande do Sul, e do que ocorreu em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, com cenas até então improváveis. Essa realidade exige esforço conjunto de toda a coletividade e uma preparação intensa da população, sobretudo diante das previsões relacionadas ao Super El Niño.
No campo jurídico, aguardam-se com grande expectativa as discussões, e talvez decisões do STF sobre as ações relativas ao Licenciamento Ambiental, com julgamento previsto para este mês de agosto. Espera-se que as decisões estejam à altura da importância e da urgência que o tema exige.
Édis Milaré