Por Geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos
Enquanto geocientistas mais afeitos aos fenômenos hidrológicos e geológicos associados
a cenários típicos como os Himalaias se debruçam buscando o entendimento das causas primárias da incrível combinação de eventos flash flood/debris flow que atingiu os vales do rio Trishuli e do rio Bhote Koshi, com ampla devastação de vilarejos, destruição de infraestrutura instalada nessas regiões e um número enorme de vítimas humanas, vale tirar desde já algumas lições.
– Planejamento da ocupação humana de vales geologicamente sujeitos a receber ocorridas de detritos
Vales sujeitos a receber corridas de detritos originadas de eventos hidrológicos e geológicos iniciados em suas cabeceiras apresentam evidências geológicas dessa propriedade, especialmente em suas extensões topográficas mais suaves de jusante. Todo aquele imenso volume de solo e rocha formadores de uma corrida de detritos, uma vez reduzida a energia que o colocou em acelerada movimentação, ou seja, reduzido o gradiente hidráulico, acabam por constituir depósitos espraiados de variáveis extensões laterais a partir das margens dos cursos d’água principais e secundários da bacia hidrográfica envolvida. Assemelham-se em forma e conteúdo granulométrico aos depósitos de piemonte, leques aluviais e cones de dejeção de sopés de serra.
Ou seja, não faltam evidências geológicas (e até testemunhais para eventos de períodos de recorrência mais curtos, como os decenais e pluri-decenais) indicativas da suscetibilidade de vales serranos aos efeitos de eventos hidrológicos-geológicos de alta energia, como as corrias de detritos, ao longo do tempo geológico.
Fato a se considerar é que essas formações aluviais acabam, ao longo do tempo, por compor paisagens extremamente convidativas para vários tipos de atividades e instalações humanas, seja por sua condição topográfica plana, sempre acima dos níveis hidrológicos de base regionais, seja por sua relativa consistência geotécnica.
Essa temerária combinação entre suscetibilidade a eventos catastróficos e a atratividade a diversos tipos de uso e ocupação do solo exigem dos órgãos de planejamento urbano e rural uma atenção redobrada quanto às decisões sobre restrições e permissões da ocupação humana, considerado para tanto, como peça de essencial importância para esse fim, um mapeamento de riscos para toda a área aluvial, voltado a identificar setores de alto risco que não devam ser de forma alguma ocupados, e setores de menor risco potencial à instalação de infraestruturas civis e demais tipos de empreendimentos humanos.
– Fundamental a adoção de sistemas de alerta e planos de contingência com a população treinada
Tudo está a indicar que no caso Nepal/Tibete a população que habitava ou trabalhava em instalações erguidas sobre a planície aluvial resultante de corridas de detritos geologicamente pretéritas, foi pega totalmente de surpresa, com a avalancha em seus calcanhares. Isso sugere fortemente que não havia um sistema de alerta instalado e operante na região. Não só o sistema de alerta, mas também estavam ausentes planos de contingência com população treinada para agir e tomar decisões rápidas quando do sinal de alerta.
A lição que fica: todo tipo de ocupação humana de vales sujeitos geologicamente a receber corridas de detritos devem obrigatoriamente instalar e contar com sistemas de alerta alimentados por monitoramento visual e instrumental da região de cabeceira, como também com a implementação de planos de contingência com envolvimento e treinamento da população potencialmente afetada.

