
Celebrado anualmente em 3 de março, o Dia Mundial da Vida Selvagem em 2026 volta seus olhos para uma riqueza frequentemente ignorada, mas vital: o tema escolhido é «Plantas Medicinais e Aromáticas: Conservando Saúde, Patrimônio e Meios de Subsistência». A escolha reflete a profunda dependência humana da flora silvestre, unindo a conservação ambiental à saúde pública e ao desenvolvimento econômico sustentável.
A relevância desse tema é sustentada por números impressionantes, uma vez que se estima que entre 70% e 95% da população em países em desenvolvimento dependam da medicina tradicional baseada em plantas para seus cuidados primários de saúde. No Brasil, essa conexão é ainda mais profunda: o país possui uma das maiores sociobiodiversidades do mundo, onde o conhecimento de comunidades tradicionais e povos indígenas sobre o uso de raízes, folhas e cascas constitui um patrimônio imaterial inestimável.
Apesar de sua importância fundamental, as plantas medicinais enfrentam ameaças severas que justificam o alerta global. A extração predatória e a coleta insustentável na natureza colocam em risco a capacidade de regeneração de espécies valiosas, comprometendo a disponibilidade desses recursos para as gerações futuras. Somado a isso, a crise climática impõe desafios adicionais, pois mudanças nos padrões de temperatura e umidade alteram drasticamente os ciclos de floração e a distribuição geográfica original dessas espécies.
Ivonne Higuero, Secretária-Geral da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção), destaca que as plantas medicinais e aromáticas estão entretecidas na vida diária de bilhões de pessoas, e que essas espécies representam uma das relações mais antigas da humanidade com a natureza, mas enfrentam hoje a ameaça da «tripla crise planetária» — mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição — além da colheita insustentável e do comércio ilegal. Atualmente, a CITES regula mais de 1.500 espécies dessas plantas para garantir que seu comércio internacional seja legal, rastreável e sustentável, reforçando a urgência de alinhar a demanda global com a gestão liderada pelas comunidades e o respeito ao conhecimento tradicional.
No cenário brasileiro, a pressão sobre espécies emblemáticas é alta. A espinheira-santa, amplamente utilizada para problemas gástricos, e a aroeira-do-sertão, conhecida por suas propriedades antiinflamatórias, sofrem com a degradação de seus biomas originais e a necessidade de manejo genético rigoroso para evitar seu esgotamento. Vale notar, ainda, o pau-rosa, da Amazônia, cujo óleo essencial é pilar da perfumaria fina mundial. Devido à exploração historicamente desordenada, a espécie é hoje classificada como «Em Perigo» na Lista Oficial da Flora Brasileira e possui seu comércio estritamente controlado pelo Anexo II da CITES.
Soma-se a este quadro a vulnerabilidade das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), que muitas vezes acumulam funções medicinais. O pinhão, semente da emblemática Araucária, é uma PANC de alto valor nutricional e cultural que se encontra na categoria «Criticamente Em Perigo» devido à redução drástica de seu habitat. Outro exemplo é o Butiá, cujos frutos são utilizados na gastronomia e na produção de infusões aromáticas, mas que enfrenta sérios riscos de extinção no Sul do país.
Fontes consultadas: https://news.un.org/pt/story/2025/10/1851167
https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/handle/doc/1140769
https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1140201/aroeira-verdadeira-myracrodruon-urundeuva
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/handle/doc/673129
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-mma-n-148-de-7-de-junho-de-2022-406203234
https://www.embrapa.br/florestas/araucaria
https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1149224/1/Prioridades-para-a-conservacao-de-Butia.pdf
https://wildlifeday.org/en
https://wildlifeday.org/en/message/ivonne-higuero-1