30 de noviembre de 2025

A realização do COP30, que reuniu em Belém do Pará, dos dias 10 a 21 de novembro, líderes mundiais, cientistas e  ativistas para discutir a agenda climática global, deu ao “Dia do Rio”, lembrado no dia 24  último, um relevo especial.

Neste evento, em inúmeras vezes, o rio Amazonas ganhou foros de personagem, destacando-se como imprescindível para a saúde do clima ou, em outras palavras, garantia para que o homem sobreviva  diante de tantos prenúncios de desastres.

Palavra originada do latim- rivus -, significando curso d’água, riacho ou arroio, com o tempo evoluiu para rio, conquistando, além de seu sentido comum, um lugar privilegiado em nossa literatura, letras de música, nomes de cidades e vilarejos ligados não raras vezes a suas características locais.

Impossível prever a transformação do sentido de palavras, nem a importância que terão a partir de seu nascimento e adaptação, mas os que fazem da literatura seu modo privilegiado de expressão têm que reconhecer a riqueza que trouxe para nossa língua o vocábulo rivus que se tornou rio.

Veja-se que  um estrangeiro, se procura captar um tanto do rosto de nosso país, ainda que superficialmente,  a par do  indefectível carnaval, samba e comidas típicas , como o açaí, vai ter que lidar com dois nomes de rios, casos do  Rio de Janeiro e o  Amazonas, nunca tão presente na mídia como neste ano. Se se for além, observando-se nossa geografia, será um nunca acabar o número de  designações de cidades, vilas e lugarejos ligados a rio, presença que o torna apto a ser personagem em nossa literatura, dando moldura a entrechos, justificando desenlaces, colorindo. Pode-se citar com esta brevíssima lista: Rio Preto (São José do …), Rio Claro, Rio Branco,  Rio do Antônio, Rio de  Contas, localidade , na Chapada Diamantina, Bahia, visitadíssima por turistas.   

Que vocábulo poderia estar em lugar de rio em nossa língua?  Flume, rio também em latim, mas aqui com pouquíssimos vestígios. Um deles se encontra em fluminense,  gentílico criado em 1783 para nomear os  nascidos  na então capitania do Rio de Janeiro. O popular clube de futebol fluminense garante sua presença na boca de muita gente, mas é pouco (ou não?) diante do  rio  que aparece no falar do povo, como se ouve na expressão “ele ganhou rios de dinheiro”.

E rio se torna também notório como título posto em samba famoso de Paulinho da Viola, incomparável: “Foi um rio que passou em minha vida/ e meu coração se deixou levar”.

Cremos que rio, em nossa literatura, poucas vezes alcançou tamanha beleza estética e leva a emoção como nos versos contidos no poema ‘‘América”,  de Carlos Drummond  de Andrade: “Sou apenas um homem. /Um homem pequenino à beira de um rio./ Vejo as  águas  que passam e não as compreendo./Sei apenas que é noite porque me chamam de casa”.

Em seu artigo “Rios: mais que cenários, importantes elementos na literatura brasileira”, Lilian  Karla dos Santos Almeida e Edimídio de Jesus Barroso Passos  destacam alguns livros em que o rio é personagem, reforçando que ele merece ter ser dia.

Entre os livros que citam, fácil entender que a abundância deste tema apareça sobretudo  na região amazônica, lugar das grandes águas. Mas, fora dessa região, os romances  Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade; A Selva, de  Ferreira da Castro; A história de um rio, de Thea Fonseca; Amazonas, Remansos, rebojos e banzeiros, de Paulo Jacob,  em seus enredos, com uma ficção de alta qualidade, mostram que sem os rios não teríamos como existir.

Sem os rios não haveria arte.

Sem os rios não haveria arte

Vista incrível do encontro dos rios Negro e Amazonas, Manaus (AM)

Comparte esta noticia