Energia Nuclear: uma energia limpa?

31 de maio de 2022

Por Edgard Tamer Milaré

Na Conferência das Nações Unidas para o Clima- COP 26, em Glasgow, restou evidenciada a necessidade de uma transição da matriz energética, hoje sustentada por combustíveis fósseis – responsáveis pela emissão dos chamados gases de efeito estufa- GEE –, para fontes alternativas, como a hidráulica, a solar, a eólica, de hidrogênio verde, entre outras. 

De fato, pela primeira vez, o texto menciona combustíveis fósseis como problema, prevendo sua redução gradual, o que nos faz trazer à tona o sempre incômodo tema da utilização da energia nuclear, ante a ferrenha resistência às chamadas novas tendências verdes.

Acidentes famosos como o de Three Mile Island, nos EUA (1979), o de Chernobyl, na Ucrânia, na antiga URSS (1986), ambos durante a Guerra Fria, e por fim a catástrofe de Fukushima, no Japão (2011), em pleno século XXI, marcam uma era de desconfiança e de traumas de inigualáveis dimensões, como bem registrados pela vencedora do prêmio Nobel de literatura 2015, Svetlana Aleksiévitch, em sua instigante obra “Vozes de Tchernóbil”. 

Hoje, porém, a agenda climática em voga e a instabilidade do preço do petróleo e do gás, apontam para a necessidade de se rediscutir o papel da energia nuclear como alternativa à transição, não só em termos de custo, mas, principalmente, de impacto ambiental, a ponto de ambientalistas históricos, como James Lovelock, Patrick Moore e Michael Shellenberger, reverem suas posições e, agora, a apontarem como a principal tecnologia capaz de garantir o fornecimento de eletricidade e alcançar objetivos de descarbonização.

Nesse contexto, a União Europeia, tão ciosa de suas responsabilidades ambientais, acaba de classificar a energia nuclear como um tipo de energia verde, o que faz sentido, considerando que as usinas nucleares não emitem CO2, apesar de, não se pode esquecer, estarem sujeitas a dois preocupantes problemas: (i) ao risco de um acidente como os acima mencionados; (ii) às dificuldades de estocar resíduos radioativos; e (iii) os possíveis conflitos nucleares.

Não por outra razão, países que cogitavam o total abandono da energia nuclear, como Suécia, após o acidente de Three Mile Island, em Harrisbourg, na Pensilvânia, e Japão, após o acidente de Fukushima, voltaram a empenhar-se integralmente na utilização da energia nuclear, como uma fonte limpa para o futuro. Daí que, como registrado por Hans-Werner Sinn, professor emérito de economia na Universidade de Munique, atualmente, há 57 usinas em construção, 97 em planejamento e 325 usinas adicionais sendo propostas. 

Registra-se, portanto, uma convergência de abalizadas opiniões acerca das expressivas benesses fornecidas pela energia nuclear, que não depende da condição do tempo e de outras variáveis, desde, é claro, que não se descure de uma constante atenção com a segurança e o avanço tecnológico do setor. Até porque, como bem ponderado por Bill Gates, no seu “Como evitar um desastre climático: as soluções que temos e as inovações necessárias”, a energia nuclear mata muito menos gente do que os carros. Aliás, mata muito menos gente do que qualquer combustível fóssil.

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